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  • A Esquerda Brasileira é hoje a maior força anti-povo da nação, uma história de Monstros, Véus e “Psyops”

    A Esquerda Brasileira é hoje a maior força anti-povo da nação, uma história de Monstros, Véus e “Psyops”

    Se algum dia a esquerda brasileira ainda defendia o papel do Estado como provedor do progresso social, esse tempo já passou.

    Desde os primórdios, a esquerda já trazia em seu DNA diversos aspectos elitistas. A começar pela compreensão de que o “povo deveria ser educado”, não tanto num sentido técnico ou mesmo cívico, mas principalmente num sentido ideológico e cultural. A esquerda sempre viu o povo, principalmente os mais humildes e necessitados, como portadores da superstição, propensos à violência e adeptos da chamada “lógica de manadas”.

    Isso partia principalmente do local social dos próprios indivíduos “de esquerda” e nem tanto das próprias ideologias.

    Se olharmos bem para trás, podemos compreender a esquerda como filha direta de uma “utopia social cristã”, como uma primeira reação orgânica ao novo mundo que estava sendo forjado. Um mundo de oligarquias, com menos autoridade, menos ordem, mais guerras, novos conflitos religiosos e ideológicos, justiçamento com cada vez menos justiça, e principalmente um novo mundo muito mais materialista, centrado na conquista terrena e no acúmulo inapropriado de riqueza material.

    Esses eram os ingredientes principais que resultariam no chamado “sistema capitalista”. Fruto direto do sucesso e do acúmulo de ouro do mercantilismo e das grandes navegações e conquistas ibéricas, somado ao nascimento dos primeiros grandes bancos europeus — que inventaram o famoso e atual “juros sobre juros” — nos países protestantes, que romperam com o Papa e com a Igreja que mantinham a usura proibida.

    Foi como uma reação à forja desse novo mundo moderno que a esquerda começa a se formar. De certa forma, é bem possível afirmar que a esquerda nasce, de fato, reacionária, muito antes de esse termo carregar as atuais conotações negativas do mundo de hoje.

    E, naqueles tempos, o combustível ideológico não podia ser outro que não o cristianismo.

    Na medida em que as coisas avançam, que as guerras acontecem, que povos caem e povos surgem, que novas tecnologias e formas de trabalho aparecem, que novos centros urbanos nascem e crescem, o novo mundo moderno começa a ganhar sua forma, seu corpo. E, junto com ele, aquilo que viria a se chamar de esquerda também começa a ganhar os seus contornos atuais.

    Inicialmente, a utopia social cristã se baseava na mística do “rei libertador”, um poder que vinha de cima, de Deus, que provinha a verdade e a justiça que libertariam os povos de seus novos e cruéis senhores.

    Mas já no século XIX, fruto da Revolução Francesa, a esquerda de fato nasce. E nasce em berço moderno, urbano, afastada do povo simples, das raízes, e vizinha do monstro que ela pretendia combater. Nasce aí o que podemos chamar de “esquerda moderna”.

    Há uma máxima do filósofo germânico Friedrich Nietzsche que diz que “aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro”. Mas, longe de frases de efeito e palavras de ordem, é uma literatura que pode ajudar a ilustrar o que ocorreria com a esquerda nesse período.

    Durante o desenvolvimento desse monstro urbano e usurário, ele desenvolveu um “estilo” próprio de atuação. Para combater a Igreja, a Autoridade e a Tradição, eles apelaram a uma arma que decidiram chamar de “razão”. E nem precisaremos entrar em detalhes de sua cultura sofística para compreender como se dará esse processo, a própria história irá ilustrar muito bem.

    Naquela época, se 1% da população soubesse ler e escrever, era muito. E é aí justamente que mora a maldade.

    Provavelmente estávamos vendo as primeiras operações de guerra cultural, em termos bem próximos da guerra cultural de nosso tempo atual. Se hoje as armas são televisões, jornais, panfletos, memes, cortes e WhatsApp, naquela época a arma principal ainda eram os livros, que se tornaram muito mais acessíveis com a invenção da prensa de Gutenberg.

    Não é preciso ser nenhum gênio para deduzir quem eram, de fato, os proprietários dessas prensas e livros e quem, de fato, eram os mais interessados numa operação de guerra intelectual: apenas e exclusivamente a elite letrada e proprietária de tecnologia, o 1%.

    Já no século XV essa operação começou, inicialmente com a republicação e massificação da própria Bíblia. Podiam escolher a sua tradução, escolher os seus livros e até recortarem os trechos que bem decidissem, espalhando a “nova palavra” onde precisassem. De fato, era fácil selecionar alguns trechos específicos, deixá-los fora de contexto, fazer a sua própria tradução e inseri-los em seu próprio contexto. Os primeiros resultados dessa operação foram extremamente catastróficos e essenciais para o surgimento do monstro capitalista: o protestantismo cristão, as guerras religiosas, a “caça às bruxas” e o justiçamento sem justiça.

    A Europa passou a mergulhar em guerras internas, nem tanto pela alma, mas principalmente pela cabeça dos cristãos. Em alguns lugares a Igreja e o Velho Mundo resistiram, na Itália, na França e na Ibéria, basicamente no mundo latino. Mas perderam muito nas terras germânicas. Povos que até ontem eram “bárbaros” passaram a decidir o que era “civilização”, e assim vemos o surgimento do protestante alemão, Lutero; do protestante inglês, o Rei Eduardo, decapitador de esposas; e do protestante suíço, Calvino, o pai da teologia da prosperidade que assombra e ameaça o mundo cristão tradicional até os dias de hoje. Esse processo foi essencial para retirar da Igreja o poder político e moral, o que foi essencial para a legalização da usura. Sem ela, os bancos não surgiriam, e sem os bancos não teríamos o sistema econômico dos “juros sobre juros”.

    No território das nações protestantes, o mundo moderno, liberal e capitalista, achou finalmente o seu terreno fértil para destruir, ocupar, se alimentar e engordar, até se tornar o Leviatã que é hoje.

    E é na capital do capital, em sua cultura urbana desenraizada, manipulada pela operação “racional” via detenção da tecnologia de imprensa, que a esquerda moderna irá surgir. Ela tentará combater o monstro em sua própria casa e — aqui temos o cerne de tudo — com as mesmas armas do monstro.

    De fato, para não ser exterminada no berço e ter alguma chance de sobrevivência, a esquerda desse novo tempo aceita muitos dos princípios norteadores e fundamentais do monstro urbano-usurário. A esquerda se apropriou da “arma da razão” e do “método dos livros” e, camuflando-se de monstro, tentou combatê-lo com suas próprias regras. A esquerda criticou a Igreja, não salvou a tradição e muito menos tentou restaurar a autoridade. No lugar disso, ela acusou o monstro de ter se “corrompido” — como se em algum momento ele tivesse sido um anjo que agora caiu — e passou a oferecer uma nova solução, um novo rompimento que nasceria da necessidade de se continuar o projeto “original”. Assim nasce a “revolução”, como uma farsa e uma tragédia.

    O nível de contradições decorrentes dessa operação de guerrilha cultural foi tamanho, que passaram a chamar sua própria contradição de realidade, e passaram não só a aceitar essas tensões todas, como se debruçaram sobre elas, vendo inclusive seu grande potencial como arma intelectual.

    Como dizem por aí: remédio para louco é um louco e meio. Assim nasce a esquerda revolucionária, que, em nome de combater o monstro, se oferece como um monstro ainda mais perigoso.

    Se as raízes da reação ao mundo moderno eram feitas da síntese entre “rei e libertação”, a síntese viraria uma fonte inesgotável de contradição, e os primeiros filhos dela seriam os modernos “anarquistas” e “comunistas”, representando os pontos mais extremos da sua tensão: tudo contra o Estado versus tudo para o Estado. Olhando dessa forma, é quase incompreensível imaginar que essas duas vertentes, quase esquizofrênicas, iriam impactar tanto o nosso mundo.

    Mas elas tiravam a sua “razão” de ser, não da busca da Verdade — pois isso exigiria uma volta e uma defesa tanto da Tradição como da Autoridade, que vinham sempre acompanhadas da Igreja. Como primeiras vítimas das modernas operações de guerra cultural dos usurários-urbanos, talvez sem muita consciência, encontram um único ponto sólido para basearem a sua existência: a luta contra o monstro que era também os seus próprios pais. Filhos de peixe.

    A antiga retroalimentação entre monstro-pai e monstro-filho ficava camuflada sob a densa camada narrativa-cultural cuidadosamente construída sobre “livros, razão e progresso”, com suas ânsias e frustrações sendo compensadas pelas conquistas materiais.

    Durante todo o século XX, essa camuflagem conseguiu esconder muito bem todas as contradições e tensões que surgiam ou que ameaçavam surgir. Foi, de fato, o grande século do materialismo, do modernismo e do consumismo.

    Não vou entrar nos detalhes de como o monstro-filho criou os próprios irmãos que cooperariam para sua derrota total em 1991. O ponto importante é que, de fato, o monstro-filho, que tinha na destruição do pai a sua razão de ser, perdeu. Também não vou entrar nos detalhes agora de como essa guerra fratricida gerou no final as maiores contradições de todas, colocando muitas vezes lado a lado anjos e demônios que, de tão camuflados, nem sequer conseguiam se identificar. Mas o ponto central é que o monstro-filho, no final, perdeu. E seu cadáver continua até hoje a se decompor; lentamente ainda, é como se seus cabelos e unhas ainda continuassem crescendo.

    Mas de todo esse processo, tem um certo irmão desse monstro-filho de quem precisamos falar. Pois esse monstro-filho caçula não só garantiu a queda do irmão rebelde, como fez e faz questão de proteger o seu pai e se reafirmar como o monstro que é.

    Nos anos sessenta, quando esse irmão nasce em terras protestantes britânicas, ele recebe seu nome de batismo, também britânico: New Left (Nova Esquerda).

    Como filho maior da contradição, como um arauto da hipocrisia, ele nasce com a seguinte arma racional baseada em livros: “Grande irmão, primeiro filho rebelde do Monstro, eu não vou esconder que quero te destruir, mas não é por mal, e sim para cumprir a sua própria vontade. Você é incapaz de vencer o pai; inclusive, você se tornou o maior obstáculo para a derrota do pai. Por isso, eu e seus outros irmãos vamos te destruir e te derrubar antes de atacarmos nosso pai”.

    A camuflagem desses tempos impediu o próprio pai, os outros irmãos e quem mais fosse, de ver a grande contradição: o monstro-pai, ao se ver diante de uma luta existencial contra o filho rebelde, fez de seu combate sua nova razão existencial. Uma vez que a Igreja, a Autoridade e a Tradição já haviam sido derrubadas e estavam amordaçadas, ele não viu problema em se reinventar como o grande inimigo de seu próprio filho rebelde, a ponto inclusive de ressuscitar o que lhe convinha do seu agora velho inimigo para ser usado de arma nessa nova luta existencial.

    Neste momento, a contradição sofre mais uma grande mutação, como era de seu costume. Agora o pai-monstro e seu filho mais novo, rebelde-dos-rebeldes, tinham ambos a mesma causa existencial: combater o grande monstro-filho-irmão rebelde. E nesta mutação eles irão se encontrar e se reconhecer como membros da mesma família; o rebelde se conciliará com seu pai. Essa talvez tenha sido a principal mutação do monstro, que talvez tenha iniciado um longo e importante processo de “descamuflagem”, de “desilusão”, processo em que nos encontramos hoje.

    Após a queda do monstro-rebelde, em 1991, a família monstro passará a viver seu mais glorioso momento. Senhores de todo o mundo, viram até o fim da história. Mas nesse processo, com as várias camadas da camuflagem não mais necessárias, e embriagados pela vitória, eles passarão a se descuidar. E assim as camadas desse véu ilusório vão começar a cair, e às vezes serão arrancadas pelos próprios pai e filho-rebelde reconciliados em seus momentos de birra e livre competição. Eles baixaram a guarda, arrancaram véus o suficiente para se olharem no espelho e serem reconhecidos como os monstros que são.

    De repente, o pai acusava o filho rebelde de ser o monstro que é, e o filho rebelde acusava o pai de ser o monstro que sempre foi. E no rasgar dos véus, o povo, agora quase letrado, ficou horrorizado ao perceber que vivia num mundo em ruínas governado por demônios.

    Desesperado, o povo passou a seguir seus instintos mais íntimos e buscou refúgio no único lugar que restava: velhas igrejas em ruínas e novas igrejas mal arquitetadas.

    É nesse ponto que nos encontramos hoje: estamos entre os monstros, o abismo, as velhas igrejas que precisam urgentemente de restauração e reparos, e novas igrejas que agora nos abrigam, mas que a qualquer momento podem ruir sobre nossas cabeças.

    O povo vem provando de que é feita a sua centelha divina, e a cada dia se mostra mais atento e mais forte. Os demônios, pai e filhos, já não conseguem voltar a se vestir com os véus rasgados, e também em desespero escolheram mostrar suas faces mais assustadoras, na esperança de que o medo vença a esperança no coração do povo que agora passa a enxergar.

    Dando nomes aos bois, o grande monstro-pai hoje mostra todas as suas garras, dentes e chifres sob Donald Trump nos EUA e sob Netanyahu em Israel. Ao mesmo tempo que se agarram com força aos últimos dois véus que lhes restaram: a “liberdade americana” e a “divindade do povo escolhido”.

    Quanto ao filho rebelde-dos-rebeldes, restou-lhe um papel secundário. Por conta de sua jovialidade, de fato, e talvez por seus véus serem mais novos e não tão decompostos ainda, acham por bem manter o máximo possível de véus. E de fato, ao nomear esses bois, você, leitor, entenderá muito bem de quais véus estou falando: “direitos humanos”, “ecologia”, “identidade de gênero” e ainda o seu mais velho véu, roubado do irmão morto: a “revolução”, que ele mantém “para que se lembre”.

    Na verdade, todo esse texto se trata desse “monstro irmão-caçula” que chamei de a “atual esquerda brasileira”. E por que os acuso de elitistas? Para enfim poder rasgar um de seus véus mais fortes, que eles carregam já há muitos anos e que também foi, de fato, roubado do irmão mais velho já falecido: a “defesa do povo”.

    A primeira razão existencial de ter nascido o primeiro filho do monstro, que o fez desejar a destruição de seu pai, nasceu de uma necessidade real, importante e urgente, que é de fato a “defesa do povo”. E como eu provo para vocês que essa verdade, hoje, nas mãos do filho-monstro-caçula, não passa de um grande véu? Desde o momento em que eles caíram como vítimas da primeira operação de guerra cultural dos usurários-urbanos, eles acreditaram no próprio véu que os veste, pois em nenhum momento conseguiram enxergar que, para se defender verdadeiramente o povo, se fazia necessário que se defendesse o que há de mais essencial no povo, o que o povo tem de mais valioso, a sua característica identitária mais profunda: a sua alma, a sua centelha divina.

    Não é possível defender o povo sem defender a fé do povo. Sem defender a herança e a história do povo, sem defender a identidade e a cultura do povo, pois é de fato isso que o povo é: fé, herança e identidade.

    Enquanto o monstro-pai rasga seus últimos véus em desespero, atacando a todos e a tudo indiscriminadamente (inclusive os próprios filhos), a atual esquerda brasileira junta todas as suas energias para manter sua mais forte razão de existir, completamente cega e vendada. Em nome da defesa do povo, a esquerda hoje é uma das maiores agressoras da essência, da alma desse povo que ela jura defender. Para o povo, vencer a esquerda se tornou também existencial, por pura legítima defesa.

    Por isso reafirmo: a esquerda é hoje essencialmente anti-povo. E, já quase sem véus, eu não os culpo mais do que culpo o próprio berço onde nasceram: o berço usurário-urbano. Seu elitismo nasce de seu próprio DNA, e fica evidente em seu método de guerra — razão e livros —, que por trás do véu revela na verdade sofismas e narrativas. Puro suco de elitismo.

    Ainda há diversos fios de seda desse véu para serem denunciados e cortados, mas aquele que se encontra vendado está agora convidado a dar uma espiada no mundo real, nas ruínas do mundo que ajudam a destruir diariamente. E quem sabe, consigam daí tirar suas próprias conclusões.

    Não é tarde para a esquerda salvar diversos aspectos de sua história e até uma boa parte de seu DNA. Mas para isso, antes, deverão deixar de temer a sua própria história, se livrar da histeria que ainda os cega, e resgatarem sem medo o que nasceram espontaneamente, organicamente: de uma reação.


    Fontes e aprofundamento histórico e teórico:

    1. Utopismo Social Cristão (Pré-Revolução Francesa): Antes de a “esquerda” existir como termo parlamentar, o desejo de uma sociedade justa e comunitária era quase exclusivamente expresso através da lente teológica. Thomas More – Utopia (1516): Esta é a pedra angular. More, um santo católico e homem de Estado, descreve uma ilha onde a propriedade privada não existe e o bem comum é a regra. É a primeira grande reação intelectual ao nascimento do cercamento de terras e ao materialismo mercantilista. Tommaso Campanella – A Cidade do Sol (1602): Escrita por um frade dominicano, descreve uma sociedade teocrática e comunitária baseada na razão e na fé, servindo como exemplo de como a mística do “poder que vem de Deus” buscava organizar a justiça na terra. As Reduções Jesuíticas (Sécs. XVII e XVIII): No contexto sul-americano, as Missões Jesuíticas são o maior exemplo prático dessa “utopia cristã” reagindo ao sistema colonial explorador. Autores como Ludovico Antonio Muratori escreveram sobre o “Cristianismo Feliz” nas Missões, que muitos historiadores hoje chamam de “socialismo cristão avant la lettre”.
    2. Socialismo Utópico de Inspiração Cristã (Séc. XIX): Após a Revolução Francesa, o ímpeto de justiça social tentou se manter vinculado ao Evangelho antes de ser totalmente absorvido pelo materialismo dialético. Henri de Saint-Simon – O Novo Cristianismo (1825): Saint-Simon argumentava que o objetivo da religião deveria ser a melhoria mais rápida possível da sorte da classe mais pobre. Ele é o pai do que viria a ser o socialismo tecnocrático, mas sua base era uma moralidade cristã reformulada. Félicité de La Mennais – Palavras de um Crente (1834): La Mennais foi um padre francês que rompeu com a hierarquia para defender que a causa do povo era a causa de Deus. Este livro teve um impacto imenso na formação da consciência social urbana na Europa e é um exemplo perfeito da transição da mística cristã para o vocabulário revolucionário. Charles Fourier e os Falanstérios: Embora menos “dogmático”, Fourier buscava uma harmonia universal que ecoava desejos de uma ordem divina contra o caos urbano e industrial.
    3. A Teologia Protestante e a Legalização da Usura: O argumento sobre o rompimento teológico que permitiu o avanço do sistema bancário (o “juros sobre juros”) encontra amplo respaldo acadêmico. O teólogo protestante João Calvino (1509–1564) é historicamente reconhecido como a primeira grande figura religiosa a defender sistematicamente a cobrança de juros em empréstimos comerciais, rompendo com a condenação absoluta da usura mantida pela Igreja Católica medieval. Esse processo é exaustivamente analisado pelo sociólogo Max Weber em sua clássica obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”.
    4. O Nascimento da Esquerda Moderna nos Centros Urbanos: A transição do “povo da terra” para a “massa urbana” ocorreu no vácuo deixado pela destruição das corporações de ofício e da autoridade tradicional. Karl Marx e Friedrich Engels – A Ideologia Alemã: Para entender a influência dos “Jovens Hegelianos” na Alemanha. Eles representam o momento em que a “razão” alemã decide que deve “superar” a religião para realizar a revolução. Eric Hobsbawm – A Era das Revoluções (1789-1848): Hobsbawm detalha como as cidades de Paris e Lyon se tornaram laboratórios onde a elite intelectual (o 1% letrado) começou a moldar o descontentamento do proletariado desenraizado. Louis Chevalier – Classes Laboriosas e Classes Perigosas: Uma obra essencial para entender como a elite urbana parisiense do século XIX passou a ver o povo pobre como uma “manada” perigosa e doente, justificando a necessidade de “educá-los” ideologicamente.
    5. Guerra Cultural e a Imprensa (O Método dos Livros): A tecnologia da prensa foi a arma do “1% letrado”: Elizabeth Eisenstein – A Revolução da Imprensa no Início da Idade Moderna: Esta é a obra definitiva sobre como a imprensa de Gutenberg mudou a cabeça do homem ocidental, permitindo a fragmentação da Bíblia e o surgimento do individualismo que sustentou tanto o protestantismo quanto o capitalismo nascente. Benedict Anderson – Comunidades Imaginadas: Ele explica o conceito de “capitalismo impresso”. Anderson mostra como a elite utilizou os livros e jornais para criar novas identidades (como o nacionalismo moderno e as ideologias de massa) no lugar das antigas identidades orgânicas e religiosas.
    6. A “Máxima” dos Monstros de Nietzsche: A citação utilizada no texto sobre tornar-se um monstro ao combatê-los é exata e pertence ao filósofo Friedrich Nietzsche. Ela está no Aforismo 146 de sua obra “Além do Bem e do Mal” (1886): “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”
    7. O Surgimento da “New Left” (Nova Esquerda) Britânica: O texto localiza o nascimento estrutural do termo e do movimento New Left na Grã-Bretanha, na virada dos anos 1950 para os anos 1960. O marco histórico desse nascimento é a fundação da revista New Left Review em 1960 (fruto da fusão entre a Universities and Left Review e o The New Reasoner), liderada por intelectuais como Stuart Hall, que buscavam romper tanto com o capitalismo ocidental (o monstro-pai) quanto com as ortodoxias soviéticas (o primeiro monstro-filho), focando em temas que moldariam as novas frentes culturais mencionadas no artigo.
    8. Sobre o Atual Processo de “descamuflagem”: Vale a pena conferir a obra de Christopher Lasch, especialmente A Revolta das Elites e a Traição da Democracia. Ele corrobora a tese de que a esquerda moderna se tornou uma força puramente elitista e urbana, que despreza os valores tradicionais (fé, família, vizinhança) que são a base da vida do povo real.